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Quanto custa publicar em acesso aberto?


A publicação de resultados de pesquisa em acesso aberto é a forma que se tornou consensual de prestar contas à sociedade sobre os recursos empregados na pesquisa, tendo em vista que boa parte desta é financiada com recursos públicos. Além disso, a sociedade como um todo – e não apenas a comunidade acadêmica – se beneficia largamente do conhecimento gerado em todas as áreas do conhecimento humano.
O movimento do acesso aberto surge da crise dos custos das publicações impressas no início dos anos 2000 e das oportunidades de acesso oferecidas pela publicação digital na Web, e hoje se encontra plenamente consolidado para os periódicos em formato digital. Estudo recente encomendado pela Comissão Europeia concluiu que quase 50% dos artigos publicados entre 2004 e 2011 nos países da Comunidade Europeia, Estados Unidos, Canadá, Japão e Brasil encontram-se disponíveis em acesso aberto na Internet em abril de 2013. O Brasil lidera com 63% dos artigos em acesso aberto em grande parte devido ao SciELO.
O Acesso Aberto (AA) se consolida por várias rotas ou modalidades: seja por meio da modalidade conhecida como dourada e que abarca os periódicos de AA que publicam todos os artigos em acesso aberto ou os periódicos híbridos que publicam parte dos artigos em acesso aberto ou na modalidade conhecida como verde que ocorre com o arquivamento dos artigos em repositórios institucionais ou centrais após a publicação em periódicos.
Ao mesmo tempo, estão também se consolidando no cenário internacional modelos de negócios que tornam a publicação em acesso aberto sustentável. Ao contrário do que possa parecer, a publicação em acesso aberto não tem custo zero, embora se proponha como mais econômica que às financiadas por assinaturas. Existem hoje vários modelos econômicos para tornar o AA viável e sustentável para os publicadores não comerciais e lucrativos no caso das editoras comerciais.
Muitos periódicos da via dourada cobram dos autores ou das instituições a que estão afiliados ou das agências financiadoras de projetos taxas de publicação  conhecida como taxa  de processamento do artigos (do inglês Article Processing Charge) . O valor destas taxas, entretanto, varia largamente entre periódicos de editoras comerciais e de associações ou sociedades científicas.  A Tabela a seguir apresenta exemplos de valores de taxas de processamento de artigos.
Modalidade Título do Periódico Taxa de processamento de artigo (US$) Editor URL
Plataforma de Acesso Aberto eLife
livre de taxa
Howard Hughes Medical InstituteMax Planck SocietyWellcome Trust http://elife.elifesciences.org/…
PLoS ONE
1350
Public Library of Science http://www.plos.org/publish/…
PLoS Medicine
2900
Journal of Medical Case Report
960
BioMed Central http://www.biomedcentral.com/…
Archives of Public Health
1730
Cancer and metabolism
2285
Nucleic Acid Research
2770
Oxford Journals http://www.oxfordjournals.org/…
PeerJ
99 – 299
PeerJ https://peerj.com/pricing/
PNAS
75 por página*
US National Academy of Sciences http://www.pnas.org/site/authors…
Periódicos Híbridos Cell Reports
5000
Cell Press http://www.cell.com/cell-reports/faq
Neuron
5000
Nature Communication
4800
Nature Publishing Group http://www.nature.com/ncomms/…
Physical Review Letters
2700
American Physical Society http://publish.aps.org/authors/…
Periódicos Brasileiros em Acesso Aberto Brazilian Journal of Medical and Biological Research
790
900
Associação Brasileira de Divulgação
Científica (ABDC)
http://www.scielo.br/revistas/bjmbr/…
Revista de Saúde Pública
660
Faculdade de Saúde Pública da Universidade
de São Paulo
http://www.scielo.br/revistas/rsp/…
(*) figuras e outros são cobrados de acordo com o manuscrito
[…]
A variabilidade dos preços está levando autores e instituições a ponderar sobre como desejam gastar seus recursos em publicação. Para publishers, a questão que se apresenta é saber se seu modelo de negócios é sustentável e lucrativo no universo AA.
[…]
Os maiores publishers comerciais que operam predominantemente com periódicos por assinatura têm suas receitas principais de outras fontes que não as taxas de publicação, como assinaturas por programas governamentais, consórcios, bibliotecas, publicidade, venda de separatas e outros. E são receitas extraordinárias em alguns casos. Estima-se a margem de lucro da multinacional Elsevier em torno de 40-50%, muito superior aos declarados 37% e próximo aos 40% informados pela Wiley.
Uma das razões principais do menor custo da publicação em AA reside no fato que a maior parte dos periódicos desta modalidade opera exclusivamente online, o que elimina custos de impressão e distribuição. Além disso, os publishers de AA de maior sucesso são empresas mais novas estruturadas para a publicação em acesso aberto, que iniciaram suas atividades com fluxos de trabalho e tecnologias avançadas que aumentam a produtividade dos processos de publicação.
Os maiores custos de publicação praticados pelas empresas comerciais de periódicos por assinatura são justificados por exercerem maior seletividade. Os publishers alegam que devem gerenciar o processo de revisão por pares, que consiste em encontrar pareceristas, avaliar este processo, verificar se os manuscritos não incluem plágio, geração dos textos em XML, produção dos metadados, impressão e distribuição, manutenção das plataformas de gestão dos processos editoriais e de armazenamento dos conteúdos, etc… A alegação de que cobram mais porque oferecem maior valor agregado é contestada por editores de periódicos em AA como PLoS ONE, que possui um time de pesquisadores renomados como editores, e conduz um criterioso processo de revisão por pares, porém não exerce atividades de editoração.
A questão reside no quanto os autores estão dispostos a pagar pelo serviço que recebem, afirma Timothy Gowers, da Universidade de Cambridge no Reino Unido, que liderou a revolta contra a Elsevier em 2012. Ele pergunta “será que a preferencia dos pesquisadores por periódicos por assinatura seria mantida se os custos fossem pagos pelo autor, ao invés do leitor?” (Whitfield 2012). A resposta a esta pergunta ajudaria a dimensionar o que realmente é essencial no trabalho – e nos custos – de editoração.
Outra justificativa dos publishers de periódicos comercializados por assinatura para suas elevadas taxas de publicação reside no percentual de rejeição. Quanto maior é o número de artigos rejeitados em relação ao total de artigos submetidos, tanto maior é a seletividade deste periódico. Os defensores deste modelo afirmam que a conexão entre preço e seletividade reflete o fato de que a função do periódico também é separar o que é essencial – e de boa qualidade – em meio a muitos artigos sobre o mesmo tema, e que separar estes artigos através de um criterioso processo de revisão por pares tem um custo que deve ser reconhecido.
[…]
No Brasil, a maior parte dos periódicos de qualidade é publicada em AA. De fato, de acordo com o DOAJ, o Brasil está situado em segundo lugar, com 921 periódicos, atrás apenas dos Estados Unidos (com 1021 periódicos).
Como indicamos acima o estudo da Comissão Europeia destaca a liderança do Brasil em proporção de artigos disponíveis em acesso livre na Internet. Este modo de publicação foi viabilizado no Brasil e demais países da América Latina graças a dois motivos principais: primeiro, o fato de a maioria dos periódicos serem editados por sociedades ou associações científicas ou instituições universitárias sem fins lucrativos, que fazem uso das contribuições dos seus associados e de subsídio governamental para custear as publicações; e, segundo, ao Programa SciELO criado em 1998.
O modelo SciELO foi rapidamente adotado por países da América Latina e Caribe, Portugal e Espanha, e mais recentemente pela África do Sul e sua rede estende-se por 16 países em 2013. O programa que começou com dez periódicos brasileiros hoje estende-se por uma rede internacional que publica  cerca de 900 títulos ativos em acesso aberto que são sustentáveis devido à dedicação de seus editores e sociedades científicas e financiamento de universidades, instituições de pesquisa e agências de apoio à pesquisa e progressivamente por taxas de publicação cobradas dos autores.
No Brasil, por exemplo, o a operação da coleção SciELO é financiada em 90% pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e 10% pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). […]  No caso do SciELO Brasil o custo médio de publicação por artigo custa em torno a US$ 130.00, incluindo os serviços de indexação, submissão online, marcação dos textos em XML, publicação online, interoperabilidade e  manutenção da plataforma tecnológica.
[…]
Estes valores são inferiores aos praticados internacionalmente por periódicos de referência como o PLoS ONE, mas bem acima de iniciativas como PeerJ, pois a RSP e BJMBR efetuam todo o trabalho de editoração, revisão e conversão para XML e no caso da RSP a publicação dos artigos é bilíngue em português e espanhol e mantém ainda a versão impressa.
A tendência é que o número das publicações em AA siga aumentando constante, mas discretamente, uma vez que pesquisadores estão tentados por vários motivos e às vezes forçados a preferir o modelo tradicional de periódicos por assinatura e de alto impacto. Em contrapartida, políticas públicas de um número crescente de países e de agências de fomento à pesquisa determinam que a publicação de resultados de pesquisa financiada com recursos públicos seja em AA. Caso estes mandatos venham a proliferar vão incrementar significativamente o número de periódicos AA.
[…]
Texto publicado no Scielo em Perspectiva.
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